domingo, 5 de dezembro de 2010

ENTREVISTA: Paulo Turra



Confesso que fiquei embevecido quando entrevistei Paulo Turra, 36 anos, técnico de futebol. Foram 50 minutos de perguntas e respostas, muitas vezes em tom descontraído, sempre com muito profissionalismo e sobriedade, características claras na personalidade deste treinador que assumiu o Bruscão no dia 16 de novembro de 2010. 

Fiquei impressionado com sua capacidade de persuasão e, principalmente, com sua história e com sua autoconfiaça. Não é que ele seja "cheião", "nariz empinado", mas o homem tem certeza do que fala. E fala bem, tem bom discurso. Tem convicção em suas ideias.

Percebi que seus 18 anos como jogador lhe deram vivência suficiente para querer ser treinador bem sucedido. Jogou de Copa Santa Catarina a Champions League. Deu "cerrotadas", como ele mesmo definiu, em Ronaldinho Gaúcho, David Beckham, Ruud Van Nistelrooy, entre outros. Jogou em estádios de Barcelona, Manchester, Dortmund, Glasgow e outros tantos lugares e templos do futebol. Quase sempre vestindo a faixa de capitão.

Na "vida normal" é casado com uma psicóloga, mantém residência fixa em Caxias do Sul/RS. É natural de Tuparendi, cidade com menos de 10 mil habiantes situada às márgens do Rio Uruguai, no Noroeste Gaúcho.

Como a entrevista foi concedida na quarta-feira, 1º de dezembro, três dias antes da estreia do Bruscão na Recopa, não pudemos discutir sobre o desempenho do time no certame, mas invadimos com vigor o campo de jogo, suas táticas, suas histórias e o futuro. "Um dia vou estar em alto nível. Pode ter certeza que eu vou chegar", foi a promessa que Turra fez.


Jornal Município: Hoje tu contas com 23 jogadores no elenco do Bruscão. É o suficiente para a temporada 2011?
Paulo Turra: Estamos buscando mais duas posições. Mais um zagueiro e mais um lateral-esquerdo. E no decorrer do trabalho, até o dia 16 de janeiro, na estreia do Catarinense, vamos ver a necessidade (de contratar mais). Até lá devemos fazer mais uns quatro jogos-treinos pra ver a evolução. Com 25 jogadores estamos encaminhados para iniciar o campeonato.

JM: Já te adaptaste à cidade?
PT:
Só estou com dificuldade de encontrar apartamento. Têm apartamentos, mas não encaixa naquilo que a gente quer. Sempre falei que salário não era problema, mas gosto de ter uma condição de vida boa. Agora estou no hotel. Meu dia a dia se resume a estádio, treinamento, hotel. Não conheço nada da cidade, nada da região.

JM: Nunca havia jogado em Brusque?
PT:
Já. Em 2007, pelo Avaí, num Catarinense. Conhecia o estádio já.

JM: E o começo no futebol foi lá em Tuparendi?
PT:
Foi. Na várzea de Tuparandi. Com 15 anos recebi uma proposta para jogar no Caxias e fui. Fiquei e me transformei em jogador profissional.

JM: Sempre foi zagueiro?
PT:
Sempre. Joguei alguns jogos de lateral. Lateral "fincado" (risos).



JM: E a partir do Caxias, decolou?
PT:
Em 97 fui para o Botafogo do Rio, campeão da Taça Guanarabara, campeão carioca e disputei o Brasileiro. Tinha 22 anos. Treinador era o Joel Santana. Depois retornei para o Caxias, fomos campeões Gaúcho em 2000 e depois fui para o Palmeiras, onde fui campeão da Copa dos Campeões. Este título deu direito a jogar a Libertadores em 2001. E naquele ano também fomos vice-campeões da Copa Mercosul. Fizemos a final contra o Vasco.

JM: O jogo do 4 a 3, de virada...
PT:
Isso. No fim ficou marcado positivamente para o Vasco e negativamente para o Palmeiras. Mas eu não joguei. O Marco Aurélio (técnico do Palmeiras na época) me tirou para colocar um jogador com "mais experiência" da zaga. Eu já tinha 26 anos. Colocou Gilmar, aquele que jogou no Cruzeiro, no São Paulo. Tomamos 4 a 3. Estávamos ganhando de 3 a 0, eu estava no banco. Aí eles fizeram 3 a 1, na saída para o intervalo, e o Júnior Baiano foi expulso do Vasco. Mas eles fizeram 3 a 2. Quando fizeram 3 a 3 o Marco Aurélio mandou eu entrar. Estava pra entrar e eles fizeram 4 a 3, bem no finalzinho. Olhei pra ele e ele mandou voltar.

JM: Quem jogava contigo naquele time?
PT:
Tinha o Tuta, o Galeano, o Basílio, o Arce, Taddei, que agora está na Roma, o Juninho, atacante muito rápido que está há 10 anos no Japão, é rei lá. Tinha o Lopes, que se envolveu num monte de confusão mas é um baita jogador. O volante Fernando também jogava. Era um timaço. Considerado o "bom e barato", que foi um time montado logo depois do fim da parceria com a Parmalat. Naquele ano chegamos nas quartas-de-finais da João Havelange, perdemos para o São caetano, que depois eliminou o Grêmio e perdeu na final para o Vasco também.

JM: Foi tua melhor época?
PT:
De 2000 até 2005 fui muito bem. No Caxias fui campeão Gaúcho em 2000, em cima do Grêmio. O Tite era meu treinador. No Palmeiras fui campeão da Copa dos Campeões. Em Portugal, no primeiro ano fui vice do Campeonato Português pelo Boa Vista, no outro ano chegamos nas semifinais da Taça Uefa (atual Liga Europa), jogamos contra Celtic lá em Glasgow, empate em 1 a 1 e em casa perdemos por 1 a 0 aos 38 do segundo tempo. E esse jogo em casa não joguei porque tomei o terceiro amarelo lá em Glasgow. Dois anos depois fui pro Vitória de Guimarães, em Portugal, e chegamos em quarto no nacional.

JM: Jogar em Glasgow deve ter sido emocionante...
PT:
Foi o ambiente mais fantástico que já joguei. Não tem descrição. Pessoal fala em São Paulo, Flamengo, mas não tem igual. Eram 67 mil pessoas. Quando entramos em campo tinha um barulho ensurdecedor. É uma torcida organizada, diferente do Brasil. Não pula, não... mas eles vibram o jogo todo, incentivam sem parar. Em termos de torcida foi o jogo mais marcante que já participei. Eles são devotos do futebol.
  
JM: Onde mais você jogou na Europa?
PT:
Joguei em Dortmund, Munique, Manchester, Barcelona... Em Manchester tinha 76 mil pessoas no estádio. Entramos lá e tomamos 3. Mas 3x3 não seria nenhum absurdo. Jogamos de igual pra igual.
Me considero um jogador realizado. Só não disputei Copa do Mundo porque não joguei na Seleção. Disputei desde Copa Santa Catarina, série A, B e C do Brasileiro, Libertadores, Mercosul, Copa do Brasil, Português, Taça de Portugal, Taça Uefa e Champions League. Disputei tudo o que um jogar sonha.

JM: E enfrentou vários jogadores de nome reconhecidos internacionalmente...
PT:
O Ronaldinho enfrentei duas vezes e ganhei as duas. Uma no Caxias, quando ele estava no Grêmio, e lá na Europa contra o PSG, eliminando eles. Além dele marquei o Owen, David Beckham, Larsson, e mais um monte desses atacantes. Passei o cerrote em todos (risos).

JM: Mas o mais difícil, quem foi?
PT:
Foi o Van Nistelrooy. Grandão, forte, faz gol. É rápido. Foi o mais difícil.

JM: É difícil encontrar jogadores que seguiram estudando mesmo jogando futebol. Você estudou até que série?
PT:
Fiz o segundo grau. E até prestei vestibular. Mas não passei. Mas não me rebaixo a ninguém que tem o certificado. Nesses anos todos de futebol conheci 35 países, culturas diferentes. Só não tenho o certificado. E sempre tive a liderança, desde criança. E gosto muito de assistir programas de história. Me interesso. Assisto os jornais na TV, me informo.

JM: Tu és bastante comunicativo. Tem Facebook, Orkut, Twitter, site pessoal. Tu mesmo cuidas disso tudo?
PT:
Sim. Por enquanto consigo dar conta. Também não fico dando "bom dia" pelo Twitter, como muitos fazem. Mas acho importante manter este contato. Uso muito essas ferramentas para interagir com o pessoal, com a torcida. Gosto de manter uma boa relação com a imprensa também. Mas tudo tem um limite. Não pode ser extremo de nenhum lado.

JM: Em 18 anos de carreira de jogador, passou por diversos treinadores. Quem mais te influenciou?
PT:
Tive um treinador em 1993 que me ensinou muito no trato com os jogadores. Professor Ademir dos Reis. Está lá em Caxias hoje. Eu era jogador do Caxias. Eu, o Washington, Luciano Almeida, fomos campeões gaúchos de juniores. Ele ensinou pra mim a ser o comandante e ser amigo. A hierarquia é bem definida, mas nada impede de ser amigo. Depois ele foi auxiliar do Felipão na Arábia, no início da carreira do Felipão, mas depois voltou a Caxias, trabalhou por ali e ficou.
Dos mais recentes, me inspiro muito no Tite, uma baita pessoa. Felipão e Murtosa, que são os caras que me deram a oportunidade de ir pro Palmeiras e depois, em Portugal, a gente interagia muito. Eles me ligavam pra pedir informações dos jogadores. Também aprendi muito nos 15 dias que passei com o Muricy lá no Fluminense, recentemente. O cara me recebeu muito bem. Me deixou totalmente a vontade. Foi uma aula. E gosto muito da maneira como o (José) Mourinho trabalha. Leio muito sobre o trabalho dele, assisto os jogos dele, as entrevistas. Disso tudo tiro as coisas boas. Mas tenho meu perfil. Sou o Paulo Turra, e não o "Felipinho" ou o "Mourinhozinho".
  
JM: Como tu gostas de montar tua equipe?
PT:
Tenho três esquemas. Vai ser muito difícil tu me ver usando o 3-5-2. Talvez, determinada situação dentro do jogo, que eu precisar que um volante marque o segundo atacante pra eu liberar os laterais, pode até ser. Mas de sair jogando com o 3-5-2 não é meu foco. Gosto de duas linhas de 4, alternando a segunda linha, que pode ser 2-2, ou em losângulo ou linha bem definida, como se joga bastante na Europa, mas pra isso tem que ter os jogadores certos. Aqui no Brusque estou fazendo 4-2-2-2, justamente porque é um clube que vem de títulos nessa formação. No futuro posso fazer o losângulo, ou o 4-2-3-1, como a Seleção vem jogando com o Mano.

JM: Tens pouco tempo de trabalho no Brusque, mas o que te chamou a atenção nestes primeiros dias?
PT:
Gostei muito do João Neto. Fiquei impressionado com o potencial desse rapaz. Ele passou por cima dos caras (no jogo-treino contra o Tupi de Gaspar). Comigo ele vai jogar e vai dar o salto. Se ele continuar demonstrando o que demonstrou, vai crescer muito. Ele vai pra cima dos caras, passa por eles. Lógico que precisa melhorar na marcação, fazer a cobertura no lado contrário, mas tem uma força muito grande. Nosso time é muito bom. É muito rápido, é o que eu gosto. Força e velocidade. Encurta os espaços, compacta a equipe, e quando tiver a bola sair em velocidade.
Tenho certeza que vamos chegar forte nesse campeonato.

JM: Gostaria que você falasse da tua filosofia de trabalho?
PT:
Em seis dias treinamos físico, técnico, tático, fizemos um jogo-treino, ganhamos. Trabalhamos com bola desde o início. Não acredito em treino que bota jogador pra ficar dando volta no gramado. Isso faz parte do passado. Jogador é com bola. E tu faz campo reduzido, 3 contra 3, 4 contra 4. Tudo com simulação de jogo. Os jogadores sabem a função que vão fazer. Todo mundo tem que atacar compactado, defender compactado, fazer o balanço. Mesmo em campo reduzido, trabalho o tático. Não vai ser fácil, mas tu vais ver a minha equipe bem posicionada.

JM: Mas isso só não garante vitória...
PT:
Não. Mas é o caminho mais curto para a vitória. E com a qualidade que temos, não tenho medo nenhum de dizer que vamos fazer um campeonato muito bom.

JM: Consegues tempo para assistir futebol na TV?
PT:
Assisto muito. Principalmente Champions League. Assisto muito jogo. Assisto segunda divisão de São Paulo na Rede Vida. O que aparecer estou vendo. É meu trabalho. Lógico que às vezes tem que dar um tempo. Mas estudo muito futebol. Vejo as duas equipes posicionadas, o que eu faria no lugar do treinador. Procuro fazer esta interação comigo mesmo.


JM: O que você vê no teu futuro?
PT:
A cada dia aprendo mais. E não tenho dúvida que vou chegar no topo. Daqui a alguns anos vou estar treinando um time grande no Brasil, que nem é meu objetivo. Meu objetivo é treinar lá fora mesmo. Vou estar lá no topo. Tenho convicção no meu trabalho. Minha filosofia é diferente, tenho algo a dizer. Vai dar certo aqui, daqui a pouco vai dar algo errado, o que é normal. Mas vou chegar.
Só que aqui no Brasil tem uma coisa: às vezes o "certo não é o certo". Mas o certo é o caminho mais próximo pra se chegar a vitória.

JM: Da onde vem essa nova filosofia
PT:
Aprendi muito em Portugal. No Vitória de Guimarãaes tinha um baita treinador. Manoel Machado, um cara tranquilo, de conversa mansa, muito bom taticamente. Comecei a me colocar no lugar dele, a pensar o que seria bom para a equipe. Conversando com jogadores mais experientes, comecei a ler, e vi que poderia ser treinador.

JM: Fala-se muito em o Brusque contratar um "medalhão", um jogador de nome, como foi o Viola nesse ano. Qual a tua opinião sobre isso?
PT:
Tenho uma ideia. Se daqui a pouco a direção me chamar e colocar essa ideia, vamos discutir. O marketing é muito importante, mas tem uma série de coisas a se considerar. Têm atletas e atletas. Tem que ser exemplo. O bom seria trazer um Kaká, que é exemplo dentro e fora de campo. Se eles quiserem realmente trazer alguém assim, eu posso até indicar, porque conheço muitos.

JM: Quem tu indicarias?
PT:
Aí não vou te falar. Tenho amigos que estão jogando e que poderiam vir. Mas não posso falar.

JM: Fora o futebol, o que te atrai?
PT:
Nada. Minha esposa fica braba, mas fora o futebol gosto de ficar em casa vendo futebol.

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