sábado, 25 de setembro de 2010

Garoto sem rumo


Vi meu avô perder o rumo da mente porque perdeu o objetivo da vida.

Depois dos 70, sedentário, restrito a cobrar aluguéis e tomar chimarrão, arrumou uma festa destas de família com o mesmo sobrenome para organizar.

Envolveu-se naquilo por dois anos. Enviou convites, telefonou, contratou bifê, banda, som, escolheu o local da festa, a decoração, a carne, reuniu os filhos e os netos, as noras. Deu tudo certo. Quase 400 pessoas de todo Brasil com o sobrenome Haas almoçaram juntas num baita domingo de sol. Talvez tenha sido o dia mais feliz da vida do meu avô. Impossível esquecer o sorriso dele caminhando no meio da festa.

Só que no outro dia ele não conseguia mais registrar sua assinatura num simples pedaço de papel. Seu raciocínio era tão lento que o impedia de terminar as frases. Sua mente estava perdida.

De início achei que era stress, ressaca. Depois percebi que ele tinha perdido o sentido. Não havia mais rumo para a sua vida. Teria que voltar para a rotina de aluguéis, TV, chimarrão. Era pouco para mantê-lo plenamente vivo, feliz.

Sua saúde, antes, já não era a de um atleta. Mas dali pra diante, foi minguando. Sua fala, sua memória, sua barriga grande e exuberante, seus movimentos, jamais foram os mesmos. Até que um dia ele despediu-se, no hospital.

Dói contar esta história e observá-la com certa frieza. Jamais fui um verdadeiro parceiro pra ele. Não porque eu não quisesse, ou ele não quisesse. Gostaríamos. E adorávamos quando estávamos juntos. Chimarrão ao lado dele sempre foi prazeroso. Mas estivemos distantes por muito tempo.

Porém, ele deixou esta história como ensinamento. Ela serve para mostrar que uma vida sem objetivo se acaba. Vida. Qualquer coisa que possa morrer, se não tiver algo para perseguir, passa.

Então comecei a pensar nos meus objetivos.

Iniciei pelos já alcançados. Fui um boleiro de rua bem sucedido. Ainda sou. Fui bicicleteiro. Até cavaleiro e baterista já fui. Saí duma cidade de interior para ser o primeiro da turma a fazer intercâmbio no exterior, a ter um emprego pós facul, a morar solito longe dos velhos.

Acabada a faculdade, queria trabalhar com esporte. Acabei num jornal diário, escrevendo só sobre esporte. Queria fazer este jornal se vender pela editoria de esporte. Está feito.

Depois vieram alguns fracassos.

Pensava em casar com uma bióloga linda, com quem vivi ao longo de nove anos. Não rolou. E quando errei o alvo, me vi sem foco, talvez pela primeira vez na vida.

Até entender que errar o gol faz parte do jogo levou um tempo. Nesse período perdi a taça do campeonato de vista. Ela nem me interessava mais. Assim, perdi a faixa de capitão e acabei no banco de reservas.

Agora é hora da remuntada, como diriam os espanhóis.

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