sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Suca sem retranca

Esta entrevista foi publicada hoje no Jornal Município Dia a Dia de Brusque. Suca é Gilmar da Luz Gasparoni, natural de Bagé/RS, nascido em 6 de maio de 1960. Teve 21 anos de carreira como jogador e já completou 12 anos como treinador. Treina o Brusque Futebol Clube desde de junho de 2008.

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Certo dia, numa conversa sem microfone, sem gravador, "mateando" nas dependências do Augusto Bauer, perguntei pro Suca se ele ficaria em Brusque caso o Bruscão fosse eliminado da Série D. Faltava ainda jogar em Porto Alegre, contra o Zequinha, pela rodada derradeira da primeira fase do campeonato. A resposta veio num tom de conformismo, sombreada por decepção:

- Acho meio difícil - respondeu.

Naquele dia aproveitei e sugeri que, caso fosse embora, não o fizesse sem antes dar uma entrevista de despedida ao Jornal Município Dia a Dia, onde poderíamos conversar sobre os assuntos vividos pelo treinador no Berço da Fiação Catarinense durante os 14 meses à frente do Brusque Futebol Clube.

O mundo girou e Suca acabou renovando o contrato para mais uma competição. Aceitou a proposta da direção e vai ser o treinador do time em busca da terceira taça da Copa Santa Catarina, que começa dia 18 de outubro.

Homem de palavra que é, Suca não correu da entrevista mesmo continuando no cargo.
Na sexta-feira, dia 14 de agosto, visitou o Jornal acompanhado de sua filha. Cara a cara, o treinador não se omitiu, não se esquivou, não escondeu o jogo. Enfrentou as perguntas, explicou porque o Valdo não chuta, porque o Bitencourt não sai do time, revelou qual o outro jogador que estava na balada com Felipe Oliveira, falou da época que atuava dentro das quatro linhas e peleou em duas Libertadores, da falta que a família faz após um resultado adverso, da dificuldade que teve com o elenco da Série D, sobre propostas para sair. Enfim, o "professor" saiu da retranca e mandou ver.

MDD: Após três títulos (Divisão Especial, Copa SC e Recopa Sul-Brasileira - todos em 2008) e dois campeonatos (Catarinão 2009 e Série D) em que o time ficou abaixo da expectativa, não era muito arriscado renovar o contrato? A pressão não será bem maior agora?
Suca: A pressão existe no começo de qualquer trabalho. Por menor que seja a capacidade de investimento que um clube tenha, ele sempre vai querer o máximo de ti. Se for no Navegantes, no Timbó, não tem diferença, a pressão vai existir. Encaro isso normalmente.

MDD: Ano passado foi um ano de glórias, mas no Catarinão e agora, na Série D, o time não alcançou os objetivos. Qual é a explicação?
Suca: No Catarinense esbarramos justamente no aspecto de investimento. O clube não tinha naquele momento a condição de fazer investimento maior. Tanto é que no primeiro turno, quanto tivemos condições de contar com todos os atletas, fizemos uma campanha boa, ficamos a três pontos do líder. E no segundo turno tivemos desgastes, suspensões, e aí a equipe teve um decréscimo. Poderia ter sido melhor se tivessemos a condição de fazer um grupo bem mais parelho nas questões de experiência, qualidade técnica, e se tivéssemos maior quantidade de jogadores. Em diversos momentos tivemos que recorrer a jogadores inexperientes para a ocasião.
E futebol tem duas coisas: estrutura e planejamento. Se não tiver isso, pode até acontecer, mas é difícil. Durante a Série D, por exemplo, faltou campo, faltou bola pra treinar. Fomos ter a bola do campeonato três dias antes da estreia. Só que não tínhamos o que fazer quanto a isso. Ligamos na Federação e eles não tinham. Ligamos na Nike e ela só poderia fornecer 15 dias depois do pedido. Ligamos para o Marcílio, pra pedir emprestado, não tinha. E cada bola custava R$ 420. Então o Avaí emprestou três bolas três dias antes do jogo. E depois fomos juntando a cada jogo.

MDD: E a Federação Catarinense de Futebol não poderia ajudar?
Suca: Isso é outra situação complicada. A Federação poderia ajudar mais os clubes do interior. Sabemos que em outros estados é diferente. No Rio Grande do Sul, por exemplo, os clubes do interior não pagam bola, não pagam taxa de arbitragem, principalmente segundo semestre, sem falar que às vezes a Federação patrocina os clubes. E aqui se paga tudo.

MDD: Fora o planejamento, quanto da desclassificação é creditada a ti?
Suca: O que me deixa triste é que quando se perde um jogo, a culpa é do treinador. E quando se ganha, ganha o grupo. Quando ganhamos do Jaraguá (ano passado) ou do Figueirense (neste ano), que foram jogos vencidos principalmente pelo aspecto tático, nunca me coloquei como o "causador" do resultado. E agora, principalmente no empate com o Corinthians-PR, foi creditado a mim toda culpa. Mas eu não faço gol, eu treino para que os jogadores façam. Eu não sou jogador que vou lá e defendo a bola, treino para que façam isso. Não estou me eximindo da culpa, mas não podemos ficar achando um culpado quando se trabalha em grupo.

MDD: Mas esta é uma visão geral da imprensa futebolística brasileira. E até do cidadão brasileiro...
Suca: Por isso procuro não me envolver em noticiário. Claro que sempre ficamos sabendo dos comentários daqui e dali, mas tento não ler jornal, não ouvir rádio. Por mais experiência, por mais tranquilidade que tu tenhas, tu não gostas de ouvir ou ler uma notícia de que tu foste o causador de uma situação negativa. Convivo com naturalidade, não deixo a situação abalar. Aprendi que o elogio não me faz me achar o melhor do mundo e a crítica não me torna um derrotado. Tudo faz parte. E tem mais: uma pessoa quando comenta tem que estar fundamentada. Ou pelo acompanhamento dos treinamentos, o que é fundamental, ou se a pessoa tem um profundo conhecimento do que está fazendo. Nem todos tem isso.

MDD: E além da imprensa tem o torcedor, como aqueles que ficam atrás da casamata te mandando "elogios". Como tu trabalhas com isso?
Suca: Eu converso. Poucas foram as vezes em que me desentendi com um ou outro. Normalmente dou atenção. Nem sei se é certo ou errado, mas não tem como não dar atenção ao cara que está ali sofrendo tanto quanto a gente. Às vezes até sai alguma coisa que eles não gostam, o que é natural, um palavrão, e às vezes nem é direcionado àquela pessoa. Mas o torcedor do Brusque sempre fez as cobranças normais que um torcedor faz.

MDD: Antes da renovação, vazou que o Metropolitano tinha interesse em tua contratação. Chegaste a negociar?
Suca: Não. Eu não conversei com ninguém do Metropolitano. Soube, depois que voltei do sul, que havia sido comentado. Mas não teve nenhuma proposta. Se me ligaram, não atendi.

MDD: E as propostas do Oriente Médio?
Suca: Isso esfriou um pouco, mas teve sondagem. Geralmente, aquelas propostas são feitas no mês de junho. É nessa época que os empresários montam uma comissão técnica pra se apresentarem em julho. Eu até conversei com algumas pessoas, mas nada de concreto. Tinha uma possibilidade.

MDD: Quando ocorreu a proposta?
Suca: Uma das últimas conversas foi recente, para ir para a Arábia, já estávamos jogando a Série D. Durante o Catarinense também, após fazer aquele bom primeiro turno, fomos procurados e tivemos uma situação bem encaminhada para ir para os Emirados Árabes. O empresário chegou a vir a Brusque. Depois, quando enfrentamos o Avaí em Florianópolis, ele foi ao hotel, na sequência foi a Criciúma ver nosso jogo, mas depois do Catarinense não fizemos mais contato.

MDD: E isso não atrapalha no rendimento? Não desvia o foco?
Suca: Não, não mexe. Aprendi a ser um cara muito frio nestas situações.

MDD: E agora não há mais possibilidade de sair?
Suca: Agora é difícil. Se tiver que dar alguma coisa será lá por novembro, porque o campeonato deles começou neste mês, para em setembro e depois volta. Mas eu não me empolgo muito com isso. Vivo o dia a dia.

MDD: Mudando o foco. Agora vem a Copinha e a montagem de um time novo. Por onde começa esta montagem. Quem tu pediste pra direção segurar dos que jogaram a Série D?
Suca: Daquele time que entrou como titular no último jogo, gostaria que ficassem todos (Vanderlei, Nequinha, Marcelo, Thiago, Pereira, Xipote, André Luís, Claudemir, Bitencourt, Paulinho e Valdo). Mas tem que ver seus contratos e as possibilidades de renovação (Nequinha e Claudemir voltarão para seus clubes, Metropolitano e JEC), se eles têm vontade de continuar. E temos alguns nomes para ir atrás. Primeiro temos que recuperar aquele perfil aguerrido de atleta. Não é querer achar culpado, mas na Série D perdemos muito daquele espírito pegador que tínhamos antes. Este não era um grupo aguerrido.

MDD: Como assim?
Suca: Tentávamos motivar os atletas durante a semana, antes do jogo, depois do jogo, mas sentíamos que quatro ou cinco davam resposta e o resto não reagia. Só que isso é uma característica de atleta, de perfil de jogador, não é que seja errado, mas não é o jeito que trabalhamos.

MDD: Quem mais deve vir?
Suca: Ainda não dá para dizer. Mas uma coisa é certa: quero puxar o Daniel pro profissional. Ele é do juvenil, um meia, terceiro homem. O guri joga. Tem um problema de audição, mas joga muito. Eu mesmo já joguei com atleta que era mudo e surdo. Eles melhoram os outros sentidos, percebem o adversário chegando e no fim acabam virando exemplo de superação dentro do grupo.
E depois vamos ver se achamos um atacante, um artilheiro. Queira ou não, temos que buscar este jogador. Tivemos seis atacantes que fizeram nove gols em um ano e pouco. Criávamos e não fazíamos.

MDD: Valdo pode ser este artilheiro?
Suca: Pode ser, vem melhorando muito.

MDD: Mas ele não chuta...
Suca: Mas nós treinamos bastante. O Hugo é um cara que cobra e trabalha bastante a finalização do Valdo. Talvez, o Valdo, até pela idade, sempre tenta abrir espaço pra fazer o mais fácil. E atacante geralmente surpreende quando ele está num lance impossível e acaba finalizando, nem que seja de bico. Ele, talvez, fica com um negócio na cabeça que se errar, vão pegar no pé. Mas nós somos os que mais incentivamos o Valdo a finalizar.

MDD: E o Bitencourt, ele é teu titular absoluto. Qual é a importância dele na equipe?
Suca: Hoje é difícil tu teres um jogador com as características do Bitencourt: potência na finalização, chute de fora da área, bola parada, coisas que o futebol exige. Os espaços estão curtos e a bola parada decide. Sabemos que ele não fez um Catarinense do nível da Especial, mas, na balança, ele teve mais atuações boas que ruins. E outra, levo muito em consideração a aplicação dele. Apesar de ser quase um terceiro atacante, vem ajudar na marcação de um lateral, de um meia adversário. Ele é extremamente importante. Lógico que não é insubstituível.

MDD: Contra o Corinthians ele foi "banco". Era um puxão de orelha?
Suca: Não. Lá eu queria mais marcação. Mas às vezes isto serve também pra fazer o atleta pensar, se concentrar mais.

MDD: Mas quando é preciso, assim como no caso do Felipe Oliveira, tu cortas.
Suca: Eu acho que o atleta tem que ter uma vida de atleta. Claro, há momentos de descontração e eu não proíbo. Só acho que aquela condição fora não pode interferir dentro de campo. Como atleta, tu és obrigado a abrir mão de algumas situações. Às vezes, terá que negar uma festa, um jantar. Atleta requer esforço físico. E pra ter isso, tem que ter energia armazenada, uma boa noite de sono, alimentação regulada. Se tu fores pra festa, no outro dia vais treinar mal, não vais ter aproveitamento satisfatório e isso vai refletir no jogo. Depois do jogo com o São José, na estreia, eu expliquei pra eles que teríamos que ter um comportamento de entrega muito maior em Curitiba, na próxima rodada. Daí, pra minha surpresa, de quinta pra sexta eu vi os dois atletas saído pra festa.

MDD: Eram dois? Quem era o outro?
Suca: O outro era o Gil.

MDD: Mas só o Felipe Oliveira foi dispensado.
Suca: Chegou-se a uma conclusão de que, como não conhecíamos os antecedentes do Gil, e o Felipe já tinha passado por situações semelhantes, o Gil teria mais uma chance. Decidiu-se dar uma multa pra ele e dispensar o Felipe. Se tivéssemos como trazer outro pro lugar do Gil, minha opinião é que deveríamos ter dispensado os dois. Mas foi uma luta grande pra trazer ele. Por isso, achou-se que deveria dar uma nova oportunidade.

MDD: Saindo um pouco do gramado. Faz tempo que tu moras longe da família. Isso não atrapalha o psicológico?
Suca: A gente vai se adaptando. Mas têm momentos, como após aquele jogo contra o Corinthians-PR aqui, que o que eu mais queria era estar junto da minha família. Uma conversa mais franca, um ombro pra encostar, ter os filhos por perto. Por isso, dentro do possível, vou ao Rio Grande, ou eles vêm. Só que não é fácil. O torcedor não tem nem o porque de se envolver, ou saber sobre isso. Mas somos como os outros, sentimos falta de carinho, da conversa, daquelas coisas de família.

MDD: Ainda não dá pra trazer a família?
Suca: Ainda não porque o futebol é muito inseguro. Ainda mais na situação de técnico de time do interior. Na maioria das vezes não temos nem contrato, é tudo na base da palavra. Eu converso com o presidente, ele me dá a garantia que serei técnico, acertamos uma quantia "x" por mês e eu tenho que me apagar aos resultados. Esta é minha garantia. E por isso eu vivo muito o clube.

MDD: Recentemente teve um caso de desconfiança, quando surgiu um comentário de que tu trabalhavas pouco. Tem força contrária dentro do clube? Tem gente querendo te derrubar?
Suca: Uma coisa é certo: tu só és consenso no início, pode ter certeza. Mas não é comigo, é com qualquer treinador. É uma situação normal. E se os resultados forem bons, a força contrária diminui muito.

MDD: Vamos voltar no tempo, a época que era jogador. Foram quantos anos de carreira?
Suca: Joguei 21 anos como profissional. Comecei no Grêmio Bagé e tive algumas passagens interessantes, como o Palmeiras, Botafogo, Juventude, Coritiba, Pinheiros (hoje Paraná Clube), Cerro Porteño...

MDD: Jogou no Cerro?!
Suca: Sim, joguei duas Libertadores, uma pelo Cerro e outra pelo Coritiba. As duas como titular.

MDD: E Libertadores é mesmo diferente?
Suca: Muito diferente. E eu peguei altitude. Joguei em La Paz, contra o Bolívar. O negócio é pegado. Joguei todo jogo, mas senti. Se tu corres dez metros, tua perna incha. É como se subisse uma escadaria de 90 degraus. Quando tu chegas lá em cima, a perna treme e a sensação pra respirar é como se alguém tampasse tua boca e teu nariz. Isso que nós mastigávamos folha de coca, que até no vestiário tinha de monte.

MDD: E na década de 80 a Libertadores era mais pegada ainda...
Suca: Era. A Libertadores é uma guerra. Tu vais correndo e daqui a pouco tomas uma cotovelada, um soco. Cai e levanta. Não dá nem pra reclamar. Mas de repente tu passa e devolve. Era complicado naquela época.

MDD: Tu eras o único brasileiro no Cerro?
Suca: Não, o Tarciso, que jogou no Grêmio tava lá também. E depois veio o Éder Aleixo, também ex-Grêmio e Seleção. Esse cara batia na bola como poucos. Pra ti teres um ideia, cobrava falta de chaleira nos treinos, só pra brincar. E de cada 5, fazia 3.

MDD: Este foi o ponto alto da tua carreira de atleta?
Suca: Acho que o ponto alto foi quando eu tava no Juventude e fui chamado para a Seleção Olímpica, pra ir a Los Angeles, em 84. Fiquei 41 dias convocado, joguei amistoso, mas depois a CBF optou em levar o time do Inter e eu saí.

MDD: E encerrou a carreira de jogador aonde?
Suca: Passei pelo Pelotas, pelo BEC (Blumenau), e encerrei no Guarany de Bagé, em 1996. Em janeiro de 1997 comecei a carreira de treinador, passando pelo Guarany, pelo Grêmio Bagé, pelo Avenida, pelo Pelotas (três vezes), São Gabriel, São Luiz, Brasil de Pelotas (quatro vezes) e Brusque.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Xirupita Futebol Clube

Futebol de sorriso largo, com regras próprias criadas por craques mirins e adolescentes, sem juízes, sem laterais, sem frescuras


É final de tarde e o sol começa a descer do outro lado da rodovia, amarelando o cenário. Estamos no Parque das Esculturas, em Brusque/SC, ao pé do Monte Serrat, campo propício para um futebolzinho depois duma extenuante aula de português (talvez matemática, escolha a sua "predileta"). O friozinho que chega junto da sombra que vai tomando conta do gramado afugenta a maioria das pessoas para dentro de suas casas, menos o Goleirão, o Cabeça de Abacaxi, o Mururuca e seus amigos, moradores das redondezas, crianças e adolescentes que se conheceram por causa da bola de Charles Ferreira, 14 anos.

Charles é dono da gorduchinha, logo, tem sua vaga garantida em qualquer pelada. E, além do mais, mora de frente para o Parque das Esculturas. Quando ele viu o gramado sendo plantado lá, sua mente fértil começou a tramar batalhas históricas no campinho "particular".

Não demorou a grama fechar, ele já batia uma bolinha com seu pai no meio das pedras brancas com dois, três metros de altura, talhadas por mãos e ferramentas de escultores que jamais imaginaram ver suas obras trabalhando como verdadeiros volantes de contenção na marcação dos peladeiros do Xirupita Futebol Clube.

Nome que, na verdade, não existia até eu aparecer lá no campinho para ver e fotografar a pelada dos moleques. Mas, instigados, eles nomearam o "estádio" como Xirupita em homenagem ao sarcástico (como eles) programa Pânico na TV. Assim, tomei a liberdade e o time daquela quarta-feira, dia 12 de agosto, recebeu a mesma alcunha.

Alex Nandi, 13 anos, serelepe incansável, conversava comigo e cutucava a bola de um lado para o outro naquele entardecer. Saiu mais cedo da aula e esperava com Charles os amigos largarem da escola para jogar. Cada um que passava pela rua ouvia seu nome gritado seguido da palavra "joga?!". E até eu fui convidado.

De repente vem Matheus Frena saltitante dentro de seu uniforme verde escolar, correndo loucamente em direção ao campo. Matheus, 7 anos, é o Goleirão. Mal passou de um metro de altura e já sofre na mãos do mais velhos, que o colocam no gol para terem as suas vidas facilitadas.

Achas que o Goleirão se intimida? Jamais. Ele caminha para a meta com orgulho, olhando todos por cima e, se seus companheiros chutam alto demais, reclama na hora, desferindo impropérios para um arqueiro daquele tamanho.

Porém, como na pelada não há juiz, não há treinador, não há pai, não há patrão, (quase) tudo vale. A lateral do campo, por exemplo, só termina no no ribeirão de um lado, e na estrada, do outro. Linha de fundo há, afinal, passou das traves, acabou o campo. Falta? Bem, a falta tem que ser em consenso.

Quando alguém dá uma entrada mais ríspida, ambos os times discutem: foi ou não foi? Quem gritar mais forte, ganha. Em casos extremos, uma opinião de fora (talvez um amigo mais velho, alguém passando na rua) pode ajudar.

E o jogo vai rolando. Enquanto o trio Goleirão, Charles e Alex estavam apenas no aquecimento, outros chegavam. Entre eles, a meiga Rosalina do Nascimento Frener, 10 anos, cabelos loiros, cacheados e longos, presos por um rabicó.

Ela também entra na jogada, assim como Mururuca, que na verdade chama Ânderson Sbardelato, 14 anos, e é famoso por inventar palavras estranhas, tal qual seu apelido. Vem também Alexandre Thomaz Furtado (fui roubado, brinca ele), 13 anos e Maicon Nandi, primo mais novo de Alex, além do irmão de Charles, o Mikael "Cabeça de Abacaxi" Ferreira, 7 anos e 50 centímetros mais alto que o Goleirão. Chegou, largou a mochila e a bicicleta num canto e entrou num dos times, sem cerimônia, sem plaquinha de substituição.

Entre um gol e outro, pausa para tirar onda do colega, para executar a dancinha do siri, dar uma cambalhota ou para mandar um assobio para as moças que se exercitam apertadas em seus "colants" na beira da rodovia.

"Aqui é todo dia assim. Dá essa hora, cinco e meia, e quem vai chegando da aula para pra jogar. Tem que ver no sábado, enche", diz Alex Nandi, calculando que aproximadamente 20 moleques se reúnem ali aos sábados à tarde. "Fizemos quatro times, joga 10 minutos ou até dois gols cada um e o resto reveza. Compramos umas "Cocas", rachamos e passamos o dia", tabela Charles.

Os times são formados na hora, por escolha após ferrenho "par ou ímpar". As equipes são, geralmente, equilibradas, que é pra dar jogo bonito. Não é preciso chuteira, nem tênis, e o uniforme, normalmente, é a camiseta que você já estava usando antes.

Simples assim. Correu, valeu!
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Texto e foto publicados na edição do Jornal Município Dia a Dia, de Brusque, em 14/08/2009

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Esquecer. Como?

Dia 25 de maio de 1952. Trajes de gala desfilavam pela rua Lauro Müller e milhares de pessoas presenciavam a maior goleada já sofrida pelo Avaí Futebol Clube nos seus 85 anos de história. Antes e depois disso, ninguém jamais fez quantidade igual de gols na esquadra azurra e, dificilmente, alguém baterá a marca registrada daquele Clube Atlético Carlos Renaux.

Detalhe do confronto que acabou 10 a 1 para os donos da casa: o goleiro do Avaí era ninguém menos que o maior camisa 1 da história do time da capital: Adolfinho.

Mas a data é tão constrangedora para avaianos que o próprio “goal keaper” faz questão de confundí-la. "Esse jogo não foi em 1947, não?", indaga, pra dizer na sequência: "lembro que o Meira (treinador do Avaí na época) foi me chamar em casa. Eu estava um tempo parado, mas ele insistiu para eu ir. Como não gosto de dizer não, fui. E fiz a maior besteira da minha vida", recorda Adolfinho do alto de seus 84 anos.

Quanto a data, o historiador Adalberto Jorge Klüser, 44 anos, garante que foi mesmo no dia 25 de maio de 1952. E salienta a força do Carlos Renaux daquele ano. “Este time era chamado de “Globotrotters” e tinha Petrusky, o único jogador a marcar seis gols em um único jogo contra o Avaí. Nenhum outro atleta conseguiu tal proeza nos 85 de história do Leão da Ilha”, destaca.

Segundo o livro “O Vovô do Futebol Catarinense”, de Eloy Koch e Antônio Heil, em 1952 o Carlos Renaux jogou 33 partidas. Nelas, fez 138 gols e sofreu 44. Obteve 27 vitórias, dois empates e apenas 2 derrotas, uma para o Flamengo/RJ por 3 a 0 e outra para o Chacaritas Juniors, da Argentina.

Conta a história que o Avaí jogava o campeonato estadual naquela época. Lá pelas tantas, teve uma partida (contra o Hercílio Luz) anulada e o Carlos Renaux aproveitou para convidar o time da capital para um amistoso em Brusque. O Avaí aceitou.

Uma das poucas memórias vivas daquela época e diretamente ligada ao futebol é seu Érico Zendron, o autor da foto que ilustra esta página. "Lembro que subi no Expresso Brusquense (ônibus da época) para tirar a foto. Foi uma goleada épica. O time deles era um timaço, mas o Renaux era melhor", acentua o ex-fotógrafo.

José Germano Schaefer, o seu Pilolo, também era jogador e, apesar do jornal “O Rebote”, datado de 31 de maio de 1952, colocar seu Pilolo como suplente da partida e como autor de um dos gols, ele afirma não ter participado do “match”. "Sei deste resultado. Lembro dos comentários, mas eu não joguei esta partida. Tenho impressão de que estava viajando ou machucado", contesta o ex-jogador, prestes a completar 84 anos.

Em seu lugar, naturalmente estaria Valmor Mafra, colocado como titular na escalação. “Eu joguei pouco tempo no Carlos Renaux, mas o Pilolo era o titular. Ele já era casado e quando não podia jogar, eu era o lateral”, recorda seu Valmor, hoje com 78 anos.

Além deles, os únicos do time brusquense que estão vivos, são Teixeirinha (que não respondeu ao nosso contato), Aderbal e Tesoura (atualmente residindo em Florianópolis).

E lá se vão 57 anos daquela jornada única. 10 a 1, com seis gols de Petruscki, um de Pilolo, um de Joine, outro de Otávio e o desconto de Saul para o Avaí. Tempos distantes e memórias difusas. Fatos marcantes.

Escalações
Carlos Renaux – Mosimann, Afonsinho, (Irineu) e Ivo; Tesoura, Bolonini, Mafra (Pilolo), Petruscki, Otávio, Teixeirinha, Aderbal (Curreca) e Joine.

Avaí – Adolfinho, Beneval, Barbato (Bolão); Nenem, Jair, Minela, Didi, Nizeta, Bolão (Américo), Miltinho, Saul (Manára)
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Texto publicado no Jornal Município Dia a Dia de 25 de maio de 2009.

sábado, 13 de dezembro de 2008

12ª vez


Antes que morram de gastura, preciso me pronunciar. Não há muito de diferente para dizer. O balanço do Brasileirão está aí abaixo, no post mais recente (ou antigo?). Só que preciso assumir que errei no único palpite infundado. Pra mim, como torcedor que sou, o Grêmio seria o campeão brasileiro em 2008.

Mas o São Paulo ganhou mais dos outros do que o Grêmio, e por isso foi campeão sobre os outros. É a fórmula justa, temos que respeitá-la.

Que venha a Libertadores, privilégio de poucos, pela 12ª vez.
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Ah, ia esquecendo do ilustre mais comentado do ano. Depois de dizer que sairia, pediu R$ 300 mil e ficou, mas com 220. Só que se for pra pagar 220 mil pra ele, me paga "déizão" que faço o mesmo trabalho. Mas, sempre pode dar certo em se tratando do Imortal dos Pampas.

Sem mais.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Enfim


A peleja está de volta. E volta mais uma vez por causa dele, o mais comentado, aquele que fez comentaristas e torcedores trocarem de opinião a cada duas semanas, aquele que receberá de brinde seu maior título da carreira, de bandeja, entregue pela alma castelhana, pelos gritos de louvor vindos da arquibancada.

Volta porque hoje, neste iluminado dia 18 de novembro, a notícia mais importante de 2009 vazou. Celso Roth confidenciou a amigos que não ficará no Grêmio no próximo ano, mesmo depois de ganhar o Brasileirão. Foi o tal Macedão, da RBS que publicou e eu não fiz força nenhuma pra duvidar.

E ainda tem quem chame o Celso de burro.
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Faltando três rodadas podemos tirar a conclusão final deste campeonato. Uma coisa é certa. A fórmula não é a mais justa e por isso (também) não é a ideal.
Se o São Paulo for campeão, você dirá com certeza que ele é melhor que o Grêmio? Como, se o Grêmio venceu os dois confrontos diretos contra o tricolor paulista?

A fórmula ideal e justa, seria aquela que obrigasse uma final, em jogos de ida e volta, entre o primeiro e segundo colocado da tabela. Um tira-teima com casa lotada nos dois estádios, dois domingos especiais em que o Brasil pararia para torcer ou secar, renda para os clubes, emoção até o final garantida, festa na casa do campeão, e não numa noite de gala, no Rio de Janeiro, para meia-dúzia de baba-ovo e um punhado de jornalista.

Outro fato comprovado, este referente ao Grêmio: quando Odone optou por Roth, eu falei pro meu tio Edinho (nem preciso dizer que ele é gremistaço): pode até dar certo, mas nós vamos nos incomodar. De fato, nos estressamos.

E, sobre a sua atuação à beira do bramado, logo abaixo há um outro texto com o título “Reveja”. O maior mérito do ex-Bigodão foi manter o time na hora que ele encaixou no 3-5-2. Ele botou um gás na galera, fechou o grupo e mandou ver na frase: “em time que está ganhando não se mexe”. Feito.

Quando teve que mexer, se perdeu e quase pôs a vaga pra Libertadores no lixo. Ele provou que é um treinador limitado a armar uma boa defesa e um esquema de jogo. Se o adversário manjar ou der um nó-tático, já era, ele se perde e não consegue desatá-lo.

Um palpite sem embasamento pra encerrar: O Grêmio vai sair campeão!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Bah chê


Com essa história de tomar chimarrão e coisaital, voltei um pouco às raizes da terra enxarcada pelo Uruguai.

Nessa, conheci um cara. Já tinham me apresentado (O 555 vivia tocando uma baita música dele no violão), mas eu não tinha me atinado.

Te liga na frase do homem:

"Andam falando por aí, de boca em boca
Que a nossa fibra e nossa garra esmoreceu
Que andam pisando em nosso pala
Quem consente é certamente porque a fibra já perdeu"

E esta é a música que o Elton sempre toca:

Batendo água
"Meu poncho emponcha lonjuras batendo água
E as águas que eu trago nele eram pra mim
Asas de noite em meus ombros sobrando casa
Longe "das casa" ombreada a barro e capim

Faz tempo que eu não emalo meu poncho inteiro
Nem abro as asas da noite pra um sol de abril
Faz muitos dias que eu venho bancando o tino
Das quatro patas do zaino pechando o frio

Troca um compasso de orelhas a cada pisada
No mesmo tranco da várzea que se encharcou
Topa nas abas sombreras, que em outros ventos
Guentaram as chuvas de agosto que Deus mandou

Meu zaino garrou da noite o céu escuro
E tudo o que a noite escuta é seu clarim
De patas batendo n'água depois da várzea
Freio e rosetas de esporas no mesmo trim
Falta distância de pago e sobra cavalo
Na mesma ronda de campo que o céu deságua

Que tem um rumo de rancho pras quatro patas
Bota seu mundo na estrada batendo água
Porque se a estrada me cobra, pago seu preço
E desabrigo o caminho pra o meu sustento
Mesmo que o mundo desabe num tempo feio
Sei o que as asas do poncho trazem por dentro"

sábado, 4 de outubro de 2008

Mateando com a província


Meu velho não me ensinou a ter time de futebol. Talvez nem tenha tido tempo pra isso. E, por uma destas coisas da vida, eu fui torcer justamente para o maior rival do time dele. (Ainda bem, é bom que se diga).

Mas, se ele não pôde me influenciar na escolha do time, me influenciou em várias outras coisas que fizeram de mim o cara que sou hoje. E, só pra não fazer injustiça (outra coisa que ele sempre me ensinou), vou lembrar que o velho Esporte Clube Cometa, do Estádio da Montanha, sempre foi nosso time em comum. Lá, eu e ele vestimos o preto, vermelho e branco. E gritamos como loucos pela vitória do Cometão.

Mas esse papo todo é pra dizer que me preparo para esquentar uma água, fazer a cuia e esperar o jogo da retomada do Grêmião, o time que foi mais forte que a influência do meu pai sobre mim. Cuia, erva e bomba que ele, meu velho, me enviou pelo correio nesta semana pra que mais um de seus costumes continue sendo um dos meus.

E, se na semana passada eu sofri e reclamei, a minha felicidade é estar nas cabeças e a dele é vencer um clássico e comemorar o oitavo lugar.


Acélio Daudt disse um dia:
"O Grêmio é igual ao capim teimoso.
Se a geada mata no inverno,
Na primavera volta mais viçoso".